Meio ano passou, no entanto parece que foi ontem que te tive pela primeira vez nos meus braços. Foi um dia de emoções ao rubro, mas nunca imaginei que fosse estar tão calma como estive, apesar de tudo, tendo em conta que no dia anterior chorei praticamente todo o dia, porque não queria um parto induzido...
Como combinado às 9 horas da manhã estava no hospital para fazer a indução do parto, com o marido, a mala da maternidade e o kit de criopreservação. Fui chamada por volta das 10 horas e atendida pela médica de serviço e por uma médica estagiária que verificou como estava a minha dilatação. "Está com a dilatação quase feita..." "Tem a certeza? Ainda na passada quinta feira cá estive e ainda só tinha dois dedos, e ando assim há mais de um mês". Tendo em conta as minhas dúvidas a estagiária resolveu solicitar a confirmação da médica de serviço que depois de verificar que só tinha dois cm de dilatação perguntou-me se não me importava que a estagiária o voltasse a fazer. Não me recusei... mais uma vez lá veio a estagiária tentar ver a minha dilatação. A minha vontade de rir nesta altura era imensa, porque estava a sentir que ela não conseguia chegar ao mesmo sítio e só a via a ficar cada vez mais vermelha e a confirmar: "ah pois... pois, são dois dedos...". Entretanto a médica de serviço colocou-me as fitas para amolecer o colo do útero e fez-me um toque. Só posso dizer que foi de uma brutalidade imensa, naquele momento senti-me como gado a ser marcado a ferro. Só não a insultei porque quase me faltou o ar!!
11 horas - após preencher e assinar a autorização para os procedimentos médicos sou internada na enfermaria. A médica mentaliza-me para o facto de poder ter de ficar internada mais um ou dois dias até as fitas começarem a produzir o efeito necessário. O meu marido acompanha-me. Na enfermaria, as enfermeiras colocam-me as cintas e monitorizam as contrações e os batimentos cardíacos da pimpolha. As dores começam-se a fazer notar, mas de momento ainda eram suportáveis. Entretanto vou-me concentrando naquele som maravilhoso, o bater do coração da pimpolha. De repente o meu coração começou a ficar apertado e quase entrava em pânico quando os batimentos cardíacos da Beatriz passaram de 160 para 140...100...80...60...30! Só consegui gritar ao meu marido para chamar a enfermeira que chegou imediatamente a seguir pois tinha ouvido o alarme do CTG.
Nem imaginam o estado de nervos em que ficamos... felizmente a Bia começou a recuperar logo em seguida. A enfermeira tranquilizou-nos e disse que era normal isso por vezes acontecer, mas que teria de ficar a ser monitorizada durante duas horas para ver se o episódio se repetia. Caso acontecesse teriam de me retirar a fitas. Começou então uma fase dolorosa a nível físico e psicológico, deitada na mesma posição durante tanto tempo, com as dores a ficarem cada vez mais intensas, com contrações de 5 em cinco minutos e o receio, com o batimento cardíaco da Bia a enfraquecer sempre um pouco a cada contração... Só respirei de alívio quando me retiraram as cintas após duas horas sem que novo episódio tivesse ocorrido.
13 horas - depois de alguns toques bastante dolorosos (tinha o colo do útero muito subido e as enfermeiras queixavam-se de que não conseguiam chegar lá!) e bastantes dores dão-me autorização para almoçar (ainda hoje não compreendo como foi possível e o que aconteceria se tivesse de ir para cesariana). Não tinha fome... só sede. Entretanto o meu marido foi almoçar. Comecei a caminhar pelo corredor mas não aguentava de dores. Deram-me então uma injeção que não fez efeito rigorosamente nenhum. Foram buscar uma bola de pilates para realizar alguns movimentos mas nem assim... O meu marido regressou e fomos caminhar para o corredor. Nesta altura tinha contrações de minuto a minuto. Volto para falar com as enfermeiras e depois de novo toque (ai as dores...) resolvem mandar-me para o bloco de partos.
Fomos para uma das salas do bloco onde conheci a enfermeira parteira mais querida e humana que poderia encontrar para me acompanhar no resto deste processo. A partir deste momento, não sei precisar muito bem o tempo/horas em que as coisas foram ocorrendo. Vieram fazer-me mais um toque (nesta altura já estava tão dorida que nem vos conto!). Conheci depois a anestesista, que também achei uma ótima profissional. Deveriam ser mais ou menos 4 horas quando me veio colocar o cateter para a epidural. Não custou nada e não senti rigorosamente nada de especial. A partir do momento em que levei a epidural não imaginam o alívio que senti... fiquei logo mais bem disposta. O pior foi que descobri que tenho um desvio na coluna e, por essa razão, a epidural só fazia efeito num dos lados da coluna. Tive de levar uma dose de reforço e deitar-me de lado para que assim toda a zona ficasse anestesiada. Colocaram-me novamente as cintas, neste período o batimento cardíaco da Bia ressentia-se bastante a cada contração mais forte, apesar de neste momento já não as sentir tanto.
Entretanto fizeram-me novo toque (já nem digo nada!!) e provocaram-me o rebentamento da bolsa de água. Não foi um dilúvio, muito pelo contrário, o líquido amniótico ia saindo aos poucos.
Comecei o trabalho de parto propriamente dito, com a ajuda da enfermeira, realmente uma querida, que só se preocupava com o meu bem estar e me dizia o que tinha de fazer para que tudo corresse bem. Eram mais ou menos 20 horas, a cabeça da Bia já se via, tinha levado uma segunda dose de epidural, no entanto não levei o reforço para a zona esquerda da coluna. Chega a equipa médica (tive a sorte de conhecer a pior equipa médica do Hospital P.H., confirmado por uma enfermeira nossa amiga), que depois de me mandarem fazer força a primeira coisa que me dizem é "se não colaborar vamos já buscar as ventosas". Nem vos consigo descrever o que senti naquele momento, devido ao turbilhão de pensamentos, dores, emoções que estava a vivenciar. Só ouvia a enfermeira dizer que eu estava a colaborar e a afirmar que eu conseguia, enquanto os médicos continuavam a teimar que iam buscar as ventosas.
A Bia estava numa posição transversa, ou seja, ainda não tinha dado a volta completa. Para a forçarem a dar, médicos e enfermeiros colocaram-se em cima de mim e empurraram-na com o cotovelo. Este sim, foi o pior momento, em termos de dor física pelo qual passei até hoje. Não consegui evitar um grito de dor, que considero grutesco, saído das profundezas do meu ser, tamanha a dor que senti. Senti aquele cotovelo trespassar a minha barriga e alcançar as minhas costelas... a cada nova investida novo grito... os médicos mandaram-me calar, um dos quais até me chegou mesmo a tapar a boca...afastaram o meu marido da minha beira num empurrão e disseram-lhe que ele só estava ali a atrapalhar (só me estava a confortar e a dar a mão!!). As dores das contrações eram o menos, o pior era uma dor lancinante que me dava nas costas após cada puxo e a cada investida que me fazia perder o ar, de tal forma que me pareciam faltar todas as forças para continuar... Fizeram-me a episiotomia, ao mesmo tempo que a enfermeira pronuncia que não havia necessidade de se ter feito tamanho corte...
Ainda agora as lágrimas me caem de raiva, de nervos, de fúria... perante uma equipa que não se importou minimamente em me fazer compreender o que eu tinha de fazer naquele momento a não ser fazer chantagem com as ventosas... era a primeira vez que estava a ter um filho!!
No meio de dor, dor e mais dor... a Bia nasce, são 21h 25 m. Levam-na imediatamente e fazem-lhe todos os exames possíveis, enquanto fazem a recolha de sangue e do cordão umbilical. A placenta entretanto é puxada e sai. Colocam a minha pequena debaixo da minha camisa, junto ao meu peito. Naquele momento tudo se esquece... as dores desaparecem, o que aconteceu é envolto em névoa (posso ficar sentada frente a frente com quem me fez o parto que não consigo reconhecer ninguém!). Um calor imenso invade todo o meu corpo ao sentir aquele pequeno ser mexer-se bem juntinho a mim. O meu coração transborda de felicidade, de amor, de realização plena! Enquanto estou a ser cosida (tarefa que durou mais de uma hora, com a enfermeira a dar pontos e a tornar a descosê-los porque não ficaram muito bem dados!! -olhem a minha sorte!!!), peço ao meu marido para tirar uma foto à minha pequena porque ainda não tinha visto a carinha dela! Sentia-a ali bem juntinho a mim, a subir pelo meu pescoço, sem no entanto a conhecer ainda... Elas nasceu às 21:25 e só às 22:41 é que consegui ver a carinha dela sem ser em foto!!!
Foi um dia extenuante, e, apesar de tudo, uma calma que não reconheci, invadiu-me em todos os momentos, não tendo vertido uma única lágrima (coisa que só aconteceu no dia em que cheguei a casa e aí sim, chorei tudo o que devia ter chorado naquele dia, de raiva, de fúria, de felicidade)!
Foi, contudo, o dia mais feliz da minha vida, o dia em que te conheci!!