Chegamos ao hospital e aguardamos pela nossa vez. A sala de espera está cheia e pelo semblante de cada um é possível prever se as coisas estão a correr bem ou mal e pressentir a felicidade, a preocupação ou a tristeza de quem ali se encontra...
Depois de um longo tempo de espera entro só para fazer a triagem. Tiram-me a febre, medem-me as tensões e perguntam-me a razão de estar ali, ao que respondo estar com um aborto retido (se há coisa que detesto é este termo!!).
Volto para a sala de espera, para junto do meu marido. Decorrido mais algum tempo lá me chamam e entramos. Sou atendida por um médico, a quem entrego o relatório passado pela minha ginecologista no dia anterior. Diz-me que tem de confirmar o diagnóstico e que tem também de estar presente uma outra médica para confirmar os resultados, torno a fazer uma nova ecografia. Mais que confirmado, o efeito "pedra de gelo" não deixa margem para dúvidas, segundo a médica... Depois de um questionário completo, o médico procede à introdução das pastilhas para provocarem o abortamento. A primeira de três doses... São 11 horas da manhã.
Somos conduzidos para o piso inferior, onde fico internada, mas como o piso está cheio, inicialmente fico na sala de espera, onde conhecemos um casal com um problema exactamente igual ao nosso. Em seguida as enfermeiras explicam-nos o que se vai passar daí em diante: pedem-nos desculpa e informam-nos que temos de ficar em macas nos corredores pois os quartos encontram-se cheios; entregam-nos um recipiente e dizem-nos que sempre que necessitarmos de ir ao quarto de banho para usarmos o recipiente; que se tivermos dores para avisar que nos dão alguma medicação; só podemos comer e beber até à hora do almoço, a partir daí temos de ficar em jejum, caso seja necessário recorrer ao bloco operatório; temos de esperar 4 horas entre cada aplicação das pastilhas, repousando inicialmente e caminhando o resto do tempo. Como estamos bem, tanto a minha "companheira" como eu, decidimos continuar na sala de espera/refeitório do piso.
As primeiras horas correm bem... Estou conformada com a situação e ter alguém ao meu lado a passar pela mesma situação faz com que me sinta mais forte e nos apoiemos mutuamente. Além disso tenho o apoio incondicional do meu marido que não sai do meu lado um segundo.
Passado algum tempo começo a sentir algumas dores mais fortes, umas fisgadas, que por serem bastante rápidas são fáceis de suportar. Depois do almoço as enfermeiras vêm relembrar-nos de que não podemos comer nem beber mais nada. Começo então as minhas longas caminhadas no curto corredor do hospital. As caminhadas e a medicação têm em mim um efeito imediato! Começo a sentir-me mal, não consigo andar, não consigo estar parada... as enfermeiras correm a ir buscar uma maca e recomendam-me que me deite. No entanto, as fortes dores, ainda suportáveis, obrigam-me a ir ao quarto de banho onde inicio o trabalho de expulsão do aborto retido. Alguns coágulos de sangue e um pequeno saquinho que imagino ser o embrião, que entrego para análise.
Volto para a maca e sou colocada num dos quartos de obstetrícia onde fico a conhecer mais um caso semelhante ao meu (um aborto retido às 13 semanas e agora a recuperar de uma infecção uterina), um pior do que o meu (aborto provocado às 4 semanas porque se estava a desenvolver numa das trompas e remoção da mesma por já se encontrar um pouco danificada) e um bem melhor do que o meu (recuperação de uma cesariana de gémeas!).
As dores começam a ser tantas que peço às enfermeiras para me darem alguma coisa. Dão-me dois Ben-u-ron e pedem-me para beber o mínimo de água possível. Não tenho posição... para qualquer lado que me vire as dores são intensas, tento manter-me muito quieta para ver se consigo adormecer, assim sempre não sentia as dores, mas isso torna-se uma tarefa impossível. Passado um tempo as dores começam a abrandar. Entretanto chega a hora de fazer a nova aplicação das pastilhas. Se só com as primeiras as dores são assim, nem imagino como serão a partir de agora!! Mas felizmente, não sei se por efeito dos comprimidos, se por ser normal, não tenho mais dores fortes.
Inicio então as minhas "longas" caminhadas, sempre com o marido ao meu lado! E ainda nem comeu nada... Não sai do meu piso com o receio de não poder voltar a entrar, porque não nos entregaram os cartões à entrada...
Pelo caminho vou partilhando sentimentos, desabafos e desejos com a minha "companheira": "Só quero ir para casa hoje, sem ter de fazer a curetagem!!"
Apesar de tudo, estou bem disposta e começo a conformar-me com a situação. Afinal (e infelizmente!!), estas coisas acontecem mais vezes do que eu imaginava!
De repente nova fisgada. Desta vez parece que me cortaram à tesoura algo que se encontrava preso no meu útero!! Corro para o quarto de banho e nem acredito no que os meus olhos vêem... Toda a minha boa disposição se dissipa, o chão desaparece dos meus pés e desato num choro convulso ao ver naquele recipiente, contrastando com o vermelho do sangue, a palidez do meu "bebé" de 4 cm (+/-) para mim tão perfeitinho como qualquer outro... já se notando os bracinhos e os pézinhos com uns dedinhos minúsculos...
Foi o pior momento da minha vida...
Impossível descrever a dor que se nos rasga o peito ao ver algo que, apesar de tudo, nunca me ocorreu que pudesse vir a ver... Peço ao meu marido para chamar a enfermeira, para que leve o "nosso bebé", e abraço-me a ele de lágrimas nos olhos e assim fico por longo tempo...
A partir deste momento, é mais complicado continuar no hospital, a minha vontade é pegar nas minhas coisas e correr para casa, mas ainda não está tudo terminado...
Continuo a andar de um lado para o outro, naquele corredor exíguo, de braço dado com o meu marido. Estou completamente esgotada física e psicologicamente. Mais uma vez sou chamada para fazer a aplicação das pastilhas. São 19 horas. Volto para a maca onde fico a descansar por algum tempo. O restante período é passado entre caminhadas e idas à casa de banho para continuar a expulsão do que se encontra no meu útero...
São 21 horas. Perguntamos à enfermeira quando iremos ser observadas pelo médico. Ela informa-nos que, por um lado, a urgência continua lotada e enquanto não houver vaga não podemos ser observadas e por outro tínhamos de dar tempo para que as pastilhas fizessem efeito, por isso só por volta das 23 horas é que poderíamos ser observadas.
Arranjamos as nossas coisas e voltamos para a sala de espera. Por volta das 22h30m a enfermeira chama-nos e diz-nos que vamos ser reencaminhadas para a urgência. Dirigimo-nos para o piso superior e aguardamos que nos chamem. Quem me recebe é o mesmo médico que me atendeu nessa manhã. Depois de uma observação e limpeza ao útero, faço uma nova ecografia para confirmar se tinha sido tudo expelido.
Como é estranho olhar para aquele monitor e ver o meu útero completamente vazio...
Como é estranho saber-me grávida num dia e no outro dia já não estar, sem ter nos braços um bebé para embalar... é uma sensação de perda indescritível...
Pergunto ao médico se é preciso fazer a curetagem e ele diz que não a recomenda e que não vê necessidade nisso. Depois de o informar que pretendo assinar o termo de responsabilidade para não ter de ficar no hospital em observação, o doutor aconselha-me a ter muita atenção a uma possível hemorragia ou febres altas. Fica registado!
Pela primeira vez nesse dia tenho razões para sorrir: vou para casa!!

Tenho consciência de que este post é muito detalhado, podendo criar alguma controvérsia em quem o lê, uma vez que tudo aquilo que senti e por que passei está aqui retratado. Mas é uma forma de me poder "libertar" de tudo isso, de seguir em frente... é um virar de página na minha vida... e que a próxima seja muito mais colorida!!


e sê-lo-á com certeza...
ResponderEliminarMais uma vez, deixo-te aqui um beijo enorme. Estou profundamente abalada com a tua história e como tal, não tenho palavras...
UM BEIJO
Querida Isa como lamento, cada vez que sei de uma história como a minha fico mto triste. Passas-te tanto minha querida...vieram-me as lágrimas aos olhos...
ResponderEliminarQdo tudo me aconteceu estava com 9semanas e 3 dias , 1 dia a menos que tu :(
Ao ler-te estava a ver o meu episósio, tb comecei as ditas pastilhas às 11:30 tb no hospital mas sempre numa cama, ñ queriam que me levantasse, nem comesse nem bebesse.Tive mta febre, mto frio mto calor, mta sede... para além da tristeza que estava sempre presente. Ñ tinha ninguém ao pé de mim ñ deixam politica do hospital. Logo nesta altura da nossa vida em que tanto precisamos de apoio, o que vale é que tinha o meu medico e ele é um anjo, ía-me ver mtas vezes. Não perdi sangue, o Dr. disse que estava bem agarradinho. (que angustia!) Eram 19h e nada, até que o meu medico mais 1 vez foi ter cmg e disse que se assim continuasse íamos para o bloco operatorio. Eram 22:30 qdo senti algo correr mas pouco, ás 0:10h entrei n bloco operatorio, n me lembro de nada e acordei sem dores, só as tais moinhas. Nessa noite fiquei no hospital e as 3 da manha deram-me um pacotinho de leite e umas bolachinhas
No outro dia depois de verem se estava tudo bem voltei para casa, com um grande vazio dentro de mim.
Esse que tu sentes minha querida...
Ninguém merece passar por isto e ainda menos quem mto deseja um bebé. Mas a vida é assim, prega-nos estas partidas...temos que continuar a viver minha querida, e nunca, nunca deistir daquilo que queremos mais na vida o nosso filho.
A partir de hj vou sempre acompanhar-te.
Se precisares de algo tens o meu endereço no blog, contacta-me sempre que quiseres.
Deixo 1 bj cheio de carinho e força
mais uma vez te digo k sinto muito, mas que te dou toda a força k possa dar mesmo longe e sem te conhecer...
ResponderEliminarvieram me as lagrimas ao olhos, so espero k recuperes rapido e k possas virar a pagina e continuar outra muito mais colorida como dizes e k sejas muito feliz.
um beijinho do tamanho do mundo e cheio de carinho
Ana Sofia
Olá minha querida Isa, venho aqui deixar uma palavra de alento, de esperança.
ResponderEliminarEstou a teu lado para o que precisares, podes falar á vontade.
Um dia vais ter o teu bebé nos teus braços, pesa que agora tens um anjo a proteger te e a olhar por vocês.
Um beijo do tamanho do mudo e força querida, a tua estrela voltará a brilhar, mas desta vez detro da tua barriga.
Vim vistar-te e nunca esperei ler o que li... fico tão triste, tão triste por ti... nem sei o que te dizer, sinto-me pequenina perante tal testemunho... apenas que tenhas força e que a estrelinha mais bonita do ceu brilha só para ti... muita força linda...
ResponderEliminarBjs
Ana e Duarte
Isa, a tua descrição impressionou-me... fiquei sem palavras... triste...
ResponderEliminarEnvio-te um abraço enorme com muita força para seguires(seguirem) em frente. Dias melhores virão, sem dúvida!
Foi, sem dúvida, o dia mais triste das nossas vidas... Todos os minutos que passamos naquele hospital foram marcantes e jamais serão esquecidos... Espero que com o tempo consigamos suavizar na nossa memória todos aqueles momentos, pois neste momento já nada podemos fazer senão olhar para a frente e seguir caminho! Não pudemos esquecer que muitas vezes os nossos próprios pais já passaram por situações semelhantes e se não as tivessem passado, se calhar nós próprios não existiríamos... Muitas vezes, Deus escreve certo por linhas tortas e nós como meros seres humanos temos de seguir com tranquilidade o destino que nos está reservado!
ResponderEliminarNinguém devia ter realmente por nenhuma das coisas que relatas.
ResponderEliminarObrigada pela partilha.
Acredito que dias melhores virão e que uma nova etapa, essa sim colorida e feliz, está para muito breve!
beijinhos a ambos
Um beijo e um abraço enormes de força, carinho e amizade. O que precisarem... já sabem...
ResponderEliminarFilipa
Olá Isa,chamo-me Sandra e descobri o teu blog por acaso, pois também tenho uma história identica à tua!Tive dois abortos espontaneos.E os dois "descobri" qdo ia fazer a 1º ecografia,às 8 semanas.No primeiro aborto tive dores horriveis,estava em casa,passei o dia todo a sangrar grandes "bocados" de sangue.Nem consegui andar!Consegui explusar tudo!Na minha segunda vez foi um pouco diferente,além de tb descobrir que o meu embrião não tinha batimento cardiaco,a minha médica recomendou-me esperar uma semana para o embrião saair naturalmente,como isso não aconteceu receitaram-me uns comprimidos para sair dessa forma!Estava uma pouco ansiosa pois sabia que tinha tido dores horriveis,e passar tudo outra vez!Bem conclusão saiu tudo!Nestas duas situações fui sempre às urgências do Santa Maria,e nunca recomendaram fazer a curetagem.Aliás eles deseconselham,só em casos extremos!Bem este post está um pouco longo,desculpa-me!É que partilhar a mesma dor com pessoas que tb passaram pelo mesmos,faz-nos pensar que não somos as únicas a passar por isto!É muito doloroso!Sensação de um vazio extremo!Agora passados quase8 meses estou pronta para continuar em frente e tentar engravidar!
ResponderEliminarPensamento positivo!
Que tudo te corra bem!
Vou visitando o teu blog!
Tb tenho um blog se quiseres visitar é http://hajaoquehouveresperoporti.blogspot.com
Desejo-te força e pensamento positivo!
Querida Isa ,lendo sua historia nao pude conter minhas lagrimas,a pouco passei por uma dor enorme como a sua e sei que um dia serei mamae sim...
ResponderEliminarVc é uma pessoa imensamente forte uma guerreira ,que orgulho em te conhcer...
Posso partcipar de sua vida??
Bjs
Li tudo com atenção, e as lágrimas encheram os meus olhos...
ResponderEliminarNão tenho palavras!