A avó do meu marido, a bisavó dos meus filhos, faleceu ontem. Estava acamada desde dezembro, com demência, mas ainda respondia na maior parte dos dias ao que lhe perguntava.
Ontem vi a sua vida passar à minha frente e das minhas mãos fugir, por entre os meus dedos... Invadiu-me a inércia de quem não sabe o que fazer, o desespero de um pedido de socorro que nunca mais chega, a aflição de quem não tem poder para alterar o destino...
Morreu-me nos braços, diante dos olhos de neto e filha, que como eu foram invadidos pela mesma inércia... Ouvia o chamado do marido na outra divisão, os meus filhos a brincarem na sala, a viatura do inem a parar à porta...
Recebi os médicos e disse-lhes que achava que a G. já tinha morrido; acompanhei-os ao quarto e após breves minutos confirmaram o inevitável... o desespero da minha sogra (filha) a dizer ao marido que eles estavam a brincar! Era dia das mentiras!! Parecia mentira mesmo... ouvir o chamado de desespero do marido da G. e ter de lhe dizer que a sua esposa (faziam 60 anos de casados este ano), tinha morrido, ter de correr para a sala e sorridente vestir os miúdos e levá-los dali para fora o mais rápido possível... e ter de me conter! Fazer de conta que nada se passou...
Já no carro, a pergunta inevitável:
- Mamã, porque estavam tantos médicos no quarto da bivó?
Explicar-lhe com a maior calma possível que a bivó estava muito velhinha e muito doente e que tinha morrido. Que da próxima vez que fosse lá a casa já não a ia ver mais...
Perguntou-me para onde tinha ido. Dei-lhe a única resposta que nos faz mais sentido nestas alturas, que tinha ido para o céu. A pergunta seguinte foi onde estava a mãe da bivó. Respondi-lhe que já tinha morrido há muito tempo e que também já estava no céu.
- Então a bivó foi para a beira dela?
- Foi meu amor! Agora está junto da mamã dela outra vez...
- Ah! Então está bem!
Cheguei a casa, dei-lhes alguma coisa para comer (íamos começar a jantar quando tudo aconteceu), deitei-os e desabei...

