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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Retrospectiva

Para que fique registado:

Out. 09 - Fomos à consulta de aconselhamento genético. Depois de uma disputa entre médica e estagiária, saí de lá lavada em lágrimas com mais dúvidas e incertezas do que aquelas com que entrei. Uma consulta para esquecer!
Falaram sobre as consequências que o nosso problema acarreta (malformações, deficiências profundas, abortos espontâneos, ...) e disseram-nos para continuar a tentar ou, se preferíssemos o tratamento, para o iniciar imediatamente porque estava a ficar velha!

Nov. 09 - Descubro mais uma vez que estou grávida, mas andava tão mal psicologicamente que não sabia se preferia que a gravidez corresse bem ou mal. Na primeira ecografia deu logo para notar que algo estava errado.

Dez. 09 - Mais uma vez comecei com hemorragias e acabei por abortar a uma semana do Natal. Desta vez estive em "trabalho de parto", com dores fortes e muito intensas, das 6 horas da tarde até às 5 horas da manhã! Decidimos que esta seria a nossa última tentativa de forma natural. Estamos decididos a iniciar os tratamentos.

Jan. 10 - Fomos à consulta de aconselhamento genético, marcada há meio ano atrás (é o problema dos hospitais públicos!), onde fomos muito bem recebidos e durante mais de uma hora estivemos a falar com o médico, que nos esclareceu muita coisa. O problema é que casos como o nosso não são muito frequentes e as estatísticas são baseadas em conhecimento empírico, não nos sendo dadas garantias de futuro. No entanto, tendo em conta de que na família não há casos de deficiência, o médico aconselhou-nos a continuar a tentar naturalmente. Somos um caso de desperdício fetal (que termo horroroso!). Ou seja, para conseguirmos um bebé saudável, temos de nos sujeitar à perda de vários fetos!

E agora encontramo-nos mais uma vez sem saber muito bem o que fazer...
Nova consulta a 20 de Maio de 2010.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Recordar o pior dia

Acabou...
Ontem à noite recordei os piores momentos da minha vida, ao passar novamente por eles. As dores, a tristeza, a angústia, o vazio... Valeu-me o miminho da minha mãe que com o receio de que algo mais grave pudesse acontecer, resolveu vir dormir a minha casa, para eu não ficar sozinha.
Pelo menos desta vez foi tudo mais rápido e no espaço de 4 horas ficou tudo resolvido. Ainda consegui ver o saco gestacional que, felizmente, se encontrava vazio!
Acabou!
Agora sim... vou virar a página!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O acordar de um sonho...

Nunca um post me custou tanto a escrever como este!
Principalmente porque não compreendo a razão de isto nos tornar a acontecer... Estamos desolados...
Não há bebé, não há saco, não há nada... como é que há gravidez???
Ficámos hoje a conhecer um novo termo "gravidez bioquímica", houve fecundação do óvulo, mas não há desenvolvimento do embrião. Acho que até conseguir ter uma gravidez até ao fim do tempo, vou ficar a conhecer todas as formas de gravidez que existem!! A sério...
Agora é esperar que a natureza trate do resto e que pelo menos, não tenha de voltar a ficar internada para que as coisas se resolvam...
Só posso dizer que neste momento me sinto revoltada, frustrada e completamente desolada com tudo o que nos aconteceu...
Miminhos precisam-se!!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O dia mais triste das nossas vidas

Sexta-feira, 25 de Julho de 2008, são 9 horas da manhã e saio de casa com o meu marido. O trânsito está infernal, mas a minha vontade de chegar ao hospital é tanta que não me incomodo minimamente. Pelo caminho vou recebendo mensagens de apoio dos meus amigos...
Chegamos ao hospital e aguardamos pela nossa vez. A sala de espera está cheia e pelo semblante de cada um é possível prever se as coisas estão a correr bem ou mal e pressentir a felicidade, a preocupação ou a tristeza de quem ali se encontra...
Depois de um longo tempo de espera entro só para fazer a triagem. Tiram-me a febre, medem-me as tensões e perguntam-me a razão de estar ali, ao que respondo estar com um aborto retido (se há coisa que detesto é este termo!!).
Volto para a sala de espera, para junto do meu marido. Decorrido mais algum tempo lá me chamam e entramos. Sou atendida por um médico, a quem entrego o relatório passado pela minha ginecologista no dia anterior. Diz-me que tem de confirmar o diagnóstico e que tem também de estar presente uma outra médica para confirmar os resultados, torno a fazer uma nova ecografia. Mais que confirmado, o efeito "pedra de gelo" não deixa margem para dúvidas, segundo a médica... Depois de um questionário completo, o médico procede à introdução das pastilhas para provocarem o abortamento. A primeira de três doses... São 11 horas da manhã.
Somos conduzidos para o piso inferior, onde fico internada, mas como o piso está cheio, inicialmente fico na sala de espera, onde conhecemos um casal com um problema exactamente igual ao nosso. Em seguida as enfermeiras explicam-nos o que se vai passar daí em diante: pedem-nos desculpa e informam-nos que temos de ficar em macas nos corredores pois os quartos encontram-se cheios; entregam-nos um recipiente e dizem-nos que sempre que necessitarmos de ir ao quarto de banho para usarmos o recipiente; que se tivermos dores para avisar que nos dão alguma medicação; só podemos comer e beber até à hora do almoço, a partir daí temos de ficar em jejum, caso seja necessário recorrer ao bloco operatório; temos de esperar 4 horas entre cada aplicação das pastilhas, repousando inicialmente e caminhando o resto do tempo. Como estamos bem, tanto a minha "companheira" como eu, decidimos continuar na sala de espera/refeitório do piso.
As primeiras horas correm bem... Estou conformada com a situação e ter alguém ao meu lado a passar pela mesma situação faz com que me sinta mais forte e nos apoiemos mutuamente. Além disso tenho o apoio incondicional do meu marido que não sai do meu lado um segundo.
Passado algum tempo começo a sentir algumas dores mais fortes, umas fisgadas, que por serem bastante rápidas são fáceis de suportar. Depois do almoço as enfermeiras vêm relembrar-nos de que não podemos comer nem beber mais nada. Começo então as minhas longas caminhadas no curto corredor do hospital. As caminhadas e a medicação têm em mim um efeito imediato! Começo a sentir-me mal, não consigo andar, não consigo estar parada... as enfermeiras correm a ir buscar uma maca e recomendam-me que me deite. No entanto, as fortes dores, ainda suportáveis, obrigam-me a ir ao quarto de banho onde inicio o trabalho de expulsão do aborto retido. Alguns coágulos de sangue e um pequeno saquinho que imagino ser o embrião, que entrego para análise.
Volto para a maca e sou colocada num dos quartos de obstetrícia onde fico a conhecer mais um caso semelhante ao meu (um aborto retido às 13 semanas e agora a recuperar de uma infecção uterina), um pior do que o meu (aborto provocado às 4 semanas porque se estava a desenvolver numa das trompas e remoção da mesma por já se encontrar um pouco danificada) e um bem melhor do que o meu (recuperação de uma cesariana de gémeas!).
As dores começam a ser tantas que peço às enfermeiras para me darem alguma coisa. Dão-me dois Ben-u-ron e pedem-me para beber o mínimo de água possível. Não tenho posição... para qualquer lado que me vire as dores são intensas, tento manter-me muito quieta para ver se consigo adormecer, assim sempre não sentia as dores, mas isso torna-se uma tarefa impossível. Passado um tempo as dores começam a abrandar. Entretanto chega a hora de fazer a nova aplicação das pastilhas. Se só com as primeiras as dores são assim, nem imagino como serão a partir de agora!! Mas felizmente, não sei se por efeito dos comprimidos, se por ser normal, não tenho mais dores fortes.
Inicio então as minhas "longas" caminhadas, sempre com o marido ao meu lado! E ainda nem comeu nada... Não sai do meu piso com o receio de não poder voltar a entrar, porque não nos entregaram os cartões à entrada...
Pelo caminho vou partilhando sentimentos, desabafos e desejos com a minha "companheira": "Só quero ir para casa hoje, sem ter de fazer a curetagem!!"
Apesar de tudo, estou bem disposta e começo a conformar-me com a situação. Afinal (e infelizmente!!), estas coisas acontecem mais vezes do que eu imaginava!
De repente nova fisgada. Desta vez parece que me cortaram à tesoura algo que se encontrava preso no meu útero!! Corro para o quarto de banho e nem acredito no que os meus olhos vêem... Toda a minha boa disposição se dissipa, o chão desaparece dos meus pés e desato num choro convulso ao ver naquele recipiente, contrastando com o vermelho do sangue, a palidez do meu "bebé" de 4 cm (+/-) para mim tão perfeitinho como qualquer outro... já se notando os bracinhos e os pézinhos com uns dedinhos minúsculos...

Foi o pior momento da minha vida...

Impossível descrever a dor que se nos rasga o peito ao ver algo que, apesar de tudo, nunca me ocorreu que pudesse vir a ver... Peço ao meu marido para chamar a enfermeira, para que leve o "nosso bebé", e abraço-me a ele de lágrimas nos olhos e assim fico por longo tempo...
A partir deste momento, é mais complicado continuar no hospital, a minha vontade é pegar nas minhas coisas e correr para casa, mas ainda não está tudo terminado...
Continuo a andar de um lado para o outro, naquele corredor exíguo, de braço dado com o meu marido. Estou completamente esgotada física e psicologicamente. Mais uma vez sou chamada para fazer a aplicação das pastilhas. São 19 horas. Volto para a maca onde fico a descansar por algum tempo. O restante período é passado entre caminhadas e idas à casa de banho para continuar a expulsão do que se encontra no meu útero...
São 21 horas. Perguntamos à enfermeira quando iremos ser observadas pelo médico. Ela informa-nos que, por um lado, a urgência continua lotada e enquanto não houver vaga não podemos ser observadas e por outro tínhamos de dar tempo para que as pastilhas fizessem efeito, por isso só por volta das 23 horas é que poderíamos ser observadas.
Arranjamos as nossas coisas e voltamos para a sala de espera. Por volta das 22h30m a enfermeira chama-nos e diz-nos que vamos ser reencaminhadas para a urgência. Dirigimo-nos para o piso superior e aguardamos que nos chamem. Quem me recebe é o mesmo médico que me atendeu nessa manhã. Depois de uma observação e limpeza ao útero, faço uma nova ecografia para confirmar se tinha sido tudo expelido.

Como é estranho olhar para aquele monitor e ver o meu útero completamente vazio...

Como é estranho saber-me grávida num dia e no outro dia já não estar, sem ter nos braços um bebé para embalar... é uma sensação de perda indescritível...

Pergunto ao médico se é preciso fazer a curetagem e ele diz que não a recomenda e que não vê necessidade nisso. Depois de o informar que pretendo assinar o termo de responsabilidade para não ter de ficar no hospital em observação, o doutor aconselha-me a ter muita atenção a uma possível hemorragia ou febres altas. Fica registado!

Pela primeira vez nesse dia tenho razões para sorrir: vou para casa!!





Tenho consciência de que este post é muito detalhado, podendo criar alguma controvérsia em quem o lê, uma vez que tudo aquilo que senti e por que passei está aqui retratado. Mas é uma forma de me poder "libertar" de tudo isso, de seguir em frente... é um virar de página na minha vida... e que a próxima seja muito mais colorida!!